quinta-feira, 12 de maio de 2022

Paga-me um café


I.

A casa onde às vezes regresso é tão distante

da que deixei pela manhã

no mundo

a água tomou o lugar de tudo

reúno baldes, estes vasos guardados

mas chove sem parar há muitos anos.



Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai

uma viagem se deu

entre as mãos e o furor

uma viagem se deu: a noite abate-se fechada

sobre o corpo.



Tivesse ainda tempo e entregava-te

o coração.



II.

Paga-me um café e conto-te a minha vida.



O inverno avançava

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebrava-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

isso me lembro.



Outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu não, tu nunca choraste

por amores que se perdem.



Os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?

e temos saudade desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois.



«Pago-te um café se me contares

o teu amor».



III.

A incompreendida figura do amor

a céu coberto sem que se exprima

rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis

e enchemos os livros da ardente ausência

de nós próprios.



Ao entardecer corremos

ao pontão sobre o mar

e a vida só se parece

com alguma coisa que sabemos.



IV.

A verdade que pertence aos gestos

ao menor dos nossos gestos

antes de chegarem palavras que nos socorram

às vezes é a verdade de um amor.



Escassos propósitos as palavras

para o abalo de terra

em que se tornou de repente

a nossa vida.



Um sofrimento não nos larga

a manhã parece-se estranhamente

com outro lugar

saberemos então que significam

os intervalos do silêncio

onde o silêncio é maior.



V.

Estendi a mão por qualquer coisa inocente

uma pedra, um fio de erva, um milagre

preciso que me digas agora

uma coisa inocente.



Não uses palavras

qualquer palavra que me digas há-de doer

pelo menos mil anos

não te prepares, não desejes os detalhes

preciso que docemente o vento

e longínquo e o próximo

espalhe o amor que não teme.



Não uses palavras

se me segredas

aquilo que no fundo das nossas mentiras

se tornou uma verdade sublime.



VI.

Atravessei contigo a minuciosa tarde

deste-me a tua mão, a vida parecia

difícil de estabelecer

acima do muro alto.



Folhas tremiam

ao invisível peso mais forte.



Podia morrer por uma só dessas coisas

que trazemos sem que possam ser ditas:

astros cruzam-se numa velocidade que apavora

inamovíveis glaciares por fim se deslocam

e na única forma que tem de acompanhar-te

o meu coração bate.



VII.

há uma altura, creio

um dia em que se acorda

e se percebe tudo:

a traição do acaso

que dispersa a folhagem do jardim,

a solidão inacessível dos desertos,

a ferocidade da natureza

em certas estações,

essa espécie de errância

que pertence ao silêncio

mais que a qualquer palavra.



VIII.

O amor é uma noite a que se chega só.



José Tolentino Mendonça,

Baldios,

Assírio & Alvim

Paga-me um café I. A casa onde às vezes regresso é tão distante da que deixei pela manhã no mundo a água tomou o lugar de tudo reúno baldes,...